
Todos trazemos um Mar dentro de nós. Seja ele de mágoas, de alegria, de saudades ou de fé. Eu trago um Oceano de sonhos, onde ondas coloridas atingem violentamente as rochas pontiagudas que guardo dentro de mim.
Em cada Mar navega um barco e, em cada barco, nascem e perdem-se vidas, esperanças e forças. Com o tempo, as águas outrora transparentes e cintilantes, pintam-se de vermelho, pincelando a proa dos navios agora sem dono, nem destino, nem sonho algum.
Carrego uma nau sem dono dentro de mim. Um barco fantasma que, aos olhos dos outros flutua, mas que, diante dos meus, afoga o único tripulante que vivia no seu interior. Ele, o meu marinheiro que não tinha medo de coisa alguma. Não temia nada nem ninguém, sobrevivia aos repetitivos naufrágios do meu espírito, e sempre sorria quando o sol nascia na infinitude dos nossos desejos.
Numa noite em que contava histórias e cantava canções de embalar, adormeceu-me sossegadamente, com a cabeça encostada na lua até o amanhecer do dia seguinte. Mal sabia eu que, ao deitar-me nas dunas dos meus medos, nunca mais o voltaria a encontrar. Ele, o meu marinheiro que não tinha medo de nada, aventurara-se nas minhas águas mais sombrias, afogando-se momentos depois, dentro dos meus olhos azuis. Cambaleou embriagado pelo álcool que, instantes antes eu ingeria, e caiu de cabeça para baixo, dentro das minhas ondas bravias, permanecendo preso somente por um pé...
Hoje, ao olhar os barcos que saem dos portos, repletos de esperanças e dores das despedidas lamuriosas, sinto que não são nada perto deste vazio que nos separa e que nos cala durante as madrugadas frias e chuvosas. Ai, os barcos! Ao menos eles voltam! A tua caravela jamais regressará ao meu porto, a tua partida foi, desde sempre, condenada a não ter regresso, e eu aqui sentada neste oceano de pedras pontiagudas, padeço deste mal que é amar-te até a morte.
Os barcos que saem dos portos despedem-se com lenços brancos e bordados nas pontas. O meu é vermelho e preto, húmido pela geada e talvez pelas lágrimas que se misturam com as ondas.
Nunca ninguém me tinha dito que era tão difícil acreditar nos sonhos. Que custava tanto, que doía a queda, e que nem todas as pernas aguentavam os caminhos montanhosos.
Acho que o meu coração nasceu com vertigens, e não os meus olhos. Que o meu optimismo viveu sempre sentado numa cadeira de rodas, tetraplégico, cego e desprovido de inteligência.
O que hei-de fazer agora? Presenciar o meu próprio desmoronamento nunca foi fácil. Ser enterrada viva pela minha avalanche de sentimentos contraditórios, tão pouco. Talvez o meu destino seja viver na prisão perpétua das minhas dúvidas, agarrar-me às grades que me cercam, e gritar até sucumbir ao cansaço dos meus membros.
Seremos nós os causadores do nosso próprio desespero? É claro que sim. Tantos marinheiros se afogaram por nossa causa, tantos barcos sem donos transportamos dentro do peito, em quantas dunas e em quantas ondas afogamos os nossos sonhos, e quantos tripulantes se asfixiaram com os gases tóxicos do nosso corpo…Muitos, foram tantos que nenhum deles ficou para nos contar a história.
