Num mundo onde o sol se transforma em lua, e o vento carrega as nuvens para longe, distanciando dos meus olhos qualquer vestígio de tempestade, já não há tempo para pensar em nada. Num mundo onde a areia do deserto consegue ser mais quente que o sol, e onde o sol se transforma em estrela, numa tentativa falhada de ser meia lua, não há lugar para lágrimas derramadas, nem cartas escritas pela metade. Neste universo onde o vazio não é sinónimo de nada, mas sim de silêncios amordaçados, não há espaço para o significado das palavras. O mundo tornou-se demasiado pequeno para as duas metades de mim. Quem me dera caber numa caixa de sapatos e meter-me debaixo da cama todas as vezes em que não me queiram ouvir. Grito para uma comunidade de surdos, e os meus clamores tornam-se abafados pelas mãos da minha própria sombra. Renasci dos meus pecados, engoli água para regurgitar amores mal amados, e sobrevivi. Os olhos que hoje lêem as letras que outrora ditaram, hoje dilatam, incrédulos, lamentando não o tempo perdido, porque este nunca foi meu, mas a energia disperdiçada em cada frase, em cada ataque de ira e mágoas imperdoáveis. Eu perdoo-te coração, pois fui eu quem te colocou a venda nos olhos, e te construiu muralhas em vez de pontes. Com a ventania outonal das minhas fraquezas, destruí teus frutos e te derrubei as árvores, desertificando as veias que levavam até ti o sangue das minhas entranhas. Tu perdoas-me porque tu me trazes dentro de ti e eu te carrego comigo. Porque tu por mim bates, e eu por ti respiro. Porque juntos somos muitos, e sozinhos somos metade daquilo que deveríamos ser. As palavras caíram num abismo, por isso, tudo o que resta é o silêncio do espaço abraçando-me o corpo com a suavidade das penas das aves de rapina. E eu hoje flutuo como uma delas, num espaço preenchido por vácuo e abafado pelo som da respiração de um coração que hoje bate por inteiro, pleno, inteiramente feliz.

