Desequilíbrios-Momentâneos :

«Relatos de um coração com vida própria, narrados na primeira pessoa, condenado a viver em harmonia com os seus desequilíbrios.»

domingo, 27 de Setembro de 2009

Fim.


( fonte: ?)

Num mundo onde o sol se transforma em lua, e o vento carrega as nuvens para longe, distanciando dos meus olhos qualquer vestígio de tempestade, já não há tempo para pensar em nada. Num mundo onde a areia do deserto consegue ser mais quente que o sol, e onde o sol se transforma em estrela, numa tentativa falhada de ser meia lua, não há lugar para lágrimas derramadas, nem cartas escritas pela metade. Neste universo onde o vazio não é sinónimo de nada, mas sim de silêncios amordaçados, não há espaço para o significado das palavras. O mundo tornou-se demasiado pequeno para as duas metades de mim. Quem me dera caber numa caixa de sapatos e meter-me debaixo da cama todas as vezes em que não me queiram ouvir. Grito para uma comunidade de surdos, e os meus clamores tornam-se abafados pelas mãos da minha própria sombra. Renasci dos meus pecados, engoli água para regurgitar amores mal amados, e sobrevivi. Os olhos que hoje lêem as letras que outrora ditaram, hoje dilatam, incrédulos, lamentando não o tempo perdido, porque este nunca foi meu, mas a energia disperdiçada em cada frase, em cada ataque de ira e mágoas imperdoáveis. Eu perdoo-te coração, pois fui eu quem te colocou a venda nos olhos, e te construiu muralhas em vez de pontes. Com a ventania outonal das minhas fraquezas, destruí teus frutos e te derrubei as árvores, desertificando as veias que levavam até ti o sangue das minhas entranhas. Tu perdoas-me porque tu me trazes dentro de ti e eu te carrego comigo. Porque tu por mim bates, e eu por ti respiro. Porque juntos somos muitos, e sozinhos somos metade daquilo que deveríamos ser. As palavras caíram num abismo, por isso, tudo o que resta é o silêncio do espaço abraçando-me o corpo com a suavidade das penas das aves de rapina. E eu hoje flutuo como uma delas, num espaço preenchido por vácuo e abafado pelo som da respiração de um coração que hoje bate por inteiro, pleno, inteiramente feliz.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

"Don't you forget about me."


(Imagem: Alexander C. Kokkinos)


Não sei como tu foste capaz, mas conseguiste, não o que querias, mas o que eu sempre temi que acontecesse. A minha saudade transformou-se em mágoa, e o meu amor em carvão. Há muito que o fogo se apagou, e hoje o que respiro é fumo cinzento, preto e duro, contaminando os meus pulmões. A dor transformou-se em cócegas para o meu coração, e eu me transformei na rocha mais pontiaguda deste penhasco. Sou a suicida e a arma branca do meu assassino. O impulso do meu salto. Sou a chuva de gotas translúcidas que nunca foi bem-vinda no teu deserto. A órfã e o orfanato de mim mesma. O escuro e o claro, os passos que fogem e as mãos que oferecem ajuda, a estrela cadente de um céu que nunca cai, e a Lua. Eu sou a meia-lua de um coração de alma desnuda.

Lembro-me do dia em que me disseste para eu não te esquecer. Não amor, eu nunca te esquecerei. Maldito seja o dia em que teci promessas. Hoje cruzo as mesmas e velhas esquinas, olhando sempre para todos os lados, numa esperança absurda de te cruzar o olhar. Para quê? Meus olhos seriam levados até as tuas mãos, e seus dedos estariam cruzados com outros dedos, teus braços se apoiariam em outros ombros, e me virarias o rosto uma vez mais. Eu, deste lado, voltaria chorando para casa e amaldiçoando todas as maldições do mundo. E repentinamente, casais apaixonados andariam diante de mim, como que para me provocar, e eu choraria ainda mais, afogando todas as minhas tentativas de sorrir nas minhas próprias tempestades sazonais. Não meu amor, eu nunca te esquecerei, pois o destino tatuou a tua alma na minha antes mesmo de eu nascer.

Se eu te tornasse a encontrar, voltarias o rosto para trás ao mesmo tempo que eu, e olhando-me nos olhos, dirias baixinho: Não me deixes. As minhas lágrimas se transformariam em cristais: Não, eu não te deixo. E os nossos destinos nunca se tornariam a cruzar.

Now you've gone away, only emptiness remains.

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

De um piano, as promessas.

O que é a verdade senão uma sucessão de convicções não comprovadas? Dizia-te eu, enquanto o teu corpo era ensaboado pela ponta dos teus dedos, e o teu sorriso embranquecido pelo sabão que escorria dos caracóis do teu cabelo. Sorrias-me. O sabor adocicado a shampoo de pêssego com laranja nunca te agradou. Nem a mim, na verdade. Eu o comprava porque ele me fazia lembrar a ti, e tu o usavas porque gostavas das minhas narinas encostadas ao teu pescoço na hora de dormir. Quando dormia não sonhava contigo, mas com o teu perfume. Cheiravas a pomares de frutas maduras prestes a cair.

Amo-te, e amar-te nunca foi difícil. Pensava comigo enquanto te secavas diante de mim. Não conseguiste responder a minha pergunta por não teres a resposta, ou porque apenas te limitaste a olhar-me, e não a ouvir? Costumavas dizer que o meu corpo era como um piano: complicado de tocar, mas fácil de sentir. O que eu esqueci de te contar é que desde o primeiro momento tornaste-te no pianista do meu coração e no maestro da minha alma. No entanto, a melodia que eu tocava quando ias de encontro às minhas teclas não era a mesma que tu ouvias quando a lua desaparecia na madrugada. Um grande pianista nunca se considerará grande enquanto os seus dedos tocarem as mesmas notas. Mas um piano, este sim, sem sombra de dúvidas, enaltecerá o seu pianista e deixará marcado nas suas teclas o peso dos seus dedos, as confissões dos seus suspiros, as lágrimas das suas vidas e as despedidas do seu olhar.

Permanecerei um piano, só que no canto da sala, ao lado da janela virada para a rua, só que com pares de teclas emudecidas, caladas e surdas, esperando o teu retorno de uma partida indefinida. Quero dizer-te que o teu banco de madeira aveludada está aqui diante de mim, e está vazio por fora e oco por dentro, como um caixão esperando o seu morto chegar.


(Foto: Jan Scholz)


E vazio permanecerá.

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Escolhas & Caminhos

Sigo por um caminho escolhido por mim, com as mãos abertas e soltas no ar, com os dedos esticados e macios, e com a esperança como guia do meu destino. Com as pedras, não construirei castelos, e sim pontes, para que deste modo nenhuma barreira possa existir entre mim e os meus sonhos.

Sigo por um caminho de terra húmida e fértil, trazendo comigo apenas as recordações de todos aqueles que cruzaram a minha direcção. Não os separo em grupos, nem os classifico como maus ou bons, simplesmente os trago, porque todos eles, de uma maneira ou de outra, fizeram com que eu me tornasse aquela que hoje sou. Aos que de mim derrubaram lágrimas, agradeço, pois todas elas juntas transformaram-se neste belíssimo mar de grandes ondas a minha volta. Aos que trouxeram-me sorrisos, devolvo-lhes em dobro, pois, para mim, os sorrisos possuem o som das cachoeiras em tardes de verão. À natureza agradeço a oportunidade de voar, e por me permitir ser a cigana de mim mesma, deixando-me mudar de direcção de acordo com os sopros do vento, sem me preocupar com a estação do ano nem com o estado meteorológico da alma. Os ventos que vêm do norte são sempre os mais belos. O sol que renasce no meio de duas nuvens cinzentas acaba por brilhar sempre mais. Os olhos que madrugam na escuridão das madrugadas, amanhecem estrelas. E os corpos entrelaçados no silêncio de dois cometas pintam o sol de cinza, transformando os seus beijos num perpétuo eclipse lunar.

Sigo num caminho escolhido por mim, amando sempre os que ficam, e saudando aqueles que vão. Eu vou sozinha, na minha simples companhia, com passos pequenos e largos, atravessando as pontes construídas pelas minhas mãos, caminhando um caminho de me encontrar.

domingo, 6 de Setembro de 2009

O pássaro das asas de ferro

(olhares.aeiou.pt/alois_foto2743048.html)


O coração quando dobra a esquina, não olha para trás. Quem olha sou eu, momentos depois, para ter a certeza de que permaneces lá, a minha espera, num tempo congelado pela impossibilidade de te encontrar. As minhas palavras são pedras que pesam. As minhas frases são curtas, e os meus passos excessivamente largos para as minhas pernas. Eu olho para trás enquanto ando para frente, pois somente assim terei a certeza de que o passado permanece sentado no mesmo lugar.

Sou um pássaro de penas douradas que não voa, acompanhado pelas suas asas de ferro que não batem mais. Tu permaneces trancado na gaiola de aço em que te confinei, e ao teu lado encontra-se um lago azul e atraente no meio de um deserto de sessenta e dois graus. Tens sede, e eu também. Ainda assim, caminho adiante, porque o inferno é a luz reluzente que deixei para trás.

Não voo, caminho pelas estradas de terra que me surgem diante dos olhos, enfrentando cada tempestade de areia, até ao dia em que a água deixar de molhar. Tudo aquilo que digo já passou e não volta, e o que resta dentro de mim são apenas palavras extintas que morreram antes mesmo de chegarem ao final.

Os sonhos que não voam, adoecem. Tu és a enfermidade de todos os sonhos que enterrei. Por isso, a cada pena solta do meu corpo, e a cada voo dos pássaros de asas de ferro, de ti me despeço, olhando para trás sistematicamente, apenas para não me esquecer do teu rosto, e não cometer o mesmo erro outra vez. Aqueles que não batem suas asas, são incapazes de ouvir o chamar dos deuses entre as nuvens de algodão. E não enxergam ao perto, tão pouco ao longe, o brilhar das estrelas no contorno da lua, nem o nascer de penas nos seus corpos desistentes.

O voo da alma é sempiterno, por isso as minhas asas de ferro. O invólucro que hoje considero desgostoso e velho, será trocado por um mais jovem, pois só no chão e nos caminhos de terra sou capaz de voar mais alto, recordando-me sempre do rosto do passado, enquanto este se deixa morrer à sede nas chamas do coração.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Premonições de um Coração apaixonado.

( Foto: não me recordo a autoria)

«… e quando nos voltarmos a encontrar, estarás bem mais velho do que eu, mais cansado e usado. E eu te olharei com pena e carinho ao mesmo tempo, sem promessas de ficar, nem juras de permanecer. E desta vez, enlaçaremos os dedos sem acorrentarmos as mãos, respiraremos o vento sem nos sufocarmos por dentro, e deixaremos que nossos corações nos guiem para longe um do outro, pois quanto mais longe estás, mais perto te tenho, e quanto mais próxima estou, mais distante me encontro de ti.

Desta vez, ao molharmos as mãos nas águas turvas deste rio, reflectiremos os nossos próprios rostos sem alucinações, e como outrora, nos esqueceremos no silêncio do nosso luto, e sem palavras, soltaremos as mãos mais uma vez (...) »